O monitoramento do ganho de peso gestacional (GPG) é parte obrigatória do acompanhamento pré-natal e tem implicações diretas nos desfechos maternos e neonatais. Até 2022, os profissionais de saúde no Brasil utilizavam dois instrumentos de referência internacional — a curva chilena de Atalah et al. e as recomendações do Institute of Medicine (IOM) dos Estados Unidos — para orientar esse acompanhamento. Desde 3 de agosto de 2022, o Ministério da Saúde passou a recomendar curvas desenvolvidas especificamente para a população brasileira, substituindo as ferramentas anteriores por um instrumento único, mais preciso e clinicamente mais relevante.
Este artigo resume as principais evidências e orientações do Position Statement nº 2 da Febrasgo (fevereiro de 2023), elaborado pelas Comissões Nacionais Especializadas em Assistência Pré-Natal e Gestação de Alto Risco, que referendou as novas recomendações. O documento completo está disponível para download no site da Febrasgo.
Por que as curvas anteriores eram insuficientes?
A curva de Atalah et al., desenvolvida no Chile, era a principal referência adotada pelo Ministério da Saúde desde o início dos anos 2000. Embora amplamente utilizada, o documento da Febrasgo aponta limitações metodológicas relevantes: os pontos de corte para classificação nutricional estavam desatualizados em relação às recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) vigentes desde 1995 e a curva classificava como adequado o ganho de peso que, na prática, seria excessivo — o que pode ter contribuído para a epidemia de sobrepeso e obesidade observada entre mulheres brasileiras.
As recomendações do IOM, por sua vez, foram desenvolvidas para gestantes norte-americanas em um cenário epidemiológico e socioeconômico distinto do brasileiro. Aplicá-las diretamente a uma população com características antropométricas e perfil de risco diferentes introduz imprecisão clínica relevante.
A base científica das novas curvas brasileiras
As novas curvas foram elaboradas a partir de dados do Consórcio Brasileiro de Nutrição Materno-infantil (CONMAI), uma rede colaborativa de pesquisa que reuniu dados de 7.086 mulheres participantes de 21 estudos realizados no Brasil entre 1990 e 2018. Os resultados foram publicados em 2021 por Kac et al. no American Journal of Clinical Nutrition (DOI: 10.1093/ajcn/nqaa402).
Foram criadas quatro curvas de GPG cumulativo, uma para cada categoria de IMC pré-gestacional: baixo peso, eutrofia, sobrepeso e obesidade. As faixas de recomendação foram definidas com base nos percentis associados ao menor risco de nascimento de crianças pequenas para a idade gestacional (PIG) ou grandes para a idade gestacional (GIG), de prematuridade e de retenção de peso excessiva aos 6 e 12 meses pós-parto.
Faixas recomendadas de ganho de peso por trimestre
Conforme o Quadro 1 do Position Statement da Febrasgo, as faixas de ganho de peso cumulativo (em kg) recomendadas para gestantes brasileiras, segundo o IMC pré-gestacional, são:
- Baixo peso (IMC < 18,5 kg/m²): 0,2 a 1,2 kg no 1º trimestre; 5,6 a 7,2 kg até 27 semanas; 9,7 a 12,2 kg até 40 semanas.
- Eutrofia (IMC ≥ 18,5 e < 25 kg/m²): −1,8 a 0,7 kg no 1º trimestre; 3,1 a 6,3 kg até 27 semanas; 8,0 a 12,0 kg até 40 semanas.
- Sobrepeso (IMC ≥ 25 e < 30 kg/m²): −1,6 a −0,05 kg no 1º trimestre; 2,3 a 3,7 kg até 27 semanas; 7,0 a 9,0 kg até 40 semanas.
- Obesidade (IMC ≥ 30 kg/m²): −1,6 a −0,05 kg no 1º trimestre; 1,1 a 2,7 kg até 27 semanas; 5,0 a 7,2 kg até 40 semanas.
É esperada pequena perda de peso no primeiro trimestre para gestantes com sobrepeso ou obesidade — até 1,5 kg — e isso não representa sinal de alarme quando dentro dessas faixas. O ganho mais expressivo ocorre a partir do segundo trimestre, independentemente da categoria de IMC.
Como aplicar as curvas na prática clínica
O Position Statement da Febrasgo estabelece um protocolo claro para o uso das novas curvas em todas as consultas de pré-natal:
- Na primeira consulta: calcular o IMC pré-gestacional com o peso relatado pela gestante (ou o peso medido até a 8ª semana, caso ela não saiba informar) e a altura aferida no serviço. A fórmula é: IMC = peso pré-gestacional (kg) ÷ altura (m)².
- Classificar o IMC pré-gestacional conforme os pontos de corte da OMS (1995) e selecionar a curva de acompanhamento correspondente.
- Em cada consulta subsequente: calcular o GPG com a fórmula: GPG = peso na visita − peso pré-gestacional. Marcar o valor na curva pelo número de semanas de gestação e verificar se está dentro da faixa recomendada.
- Orientar a gestante quanto à adequação do ganho — seja para manutenção, seja para ajuste — com base na posição do ponto marcado em relação às faixas do gráfico.
- Programar o ganho de peso esperado até a próxima consulta, até o final do trimestre ou até 40 semanas, como referência para o aconselhamento nutricional.
O novo sistema é um instrumento único: elimina a necessidade de usar a curva de Atalah e as recomendações do IOM separadamente. Com ele, é possível ao mesmo tempo diagnosticar o estado nutricional da gestante, monitorar o GPG ao longo de toda a gestação e fazer recomendações individualizadas.
Consequências clínicas do ganho de peso fora das faixas
O GPG inadequado — tanto insuficiente quanto excessivo — está associado a desfechos adversos com evidência bem estabelecida. Conforme o Position Statement da Febrasgo:
- Ganho insuficiente: baixo peso ao nascer, prematuridade, nascimento de crianças PIG e mortalidade neonatal.
- Ganho excessivo: diabetes gestacional, síndromes hipertensivas, cesárea, macrossomia, crianças GIG, obesidade infantil e retenção de peso materna excessiva pós-parto.
O GPG é um fator modificável. Por isso, o rastreio sistemático a cada consulta — e não apenas nas consultas de rotina nutricional — é a conduta recomendada pela Febrasgo para reduzir o risco de desfechos adversos.
Conclusão
A adoção das curvas brasileiras de GPG representa um avanço metodológico significativo para o pré-natal no Brasil. Elas foram construídas com dados de gestantes brasileiras, validadas por especialistas e incorporadas à Caderneta da Gestante do Ministério da Saúde em 2022. O uso dessas curvas já é a recomendação das diretrizes nacionais, conforme o Position Statement nº 2 da Febrasgo — e o profissional que ainda utiliza as referências anteriores está trabalhando com ferramentas superadas.
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